“A disputa por preço e qualidade está sempre presente, particularmente em segmentos já consolidados…”
Gabriel Medina é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília, doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Freiburg, mestre em agricultura familiar e desenvolvimento sustentável e formado em ciências agrárias pela Universidade Federal do Pará.

Gabriel Medina, professor da FAV/UnB
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AgriBrasilis – O crescimento do mercado de biológicos no Brasil é sustentável?
Gabriel Medina – Há espaço para crescimento na adoção de biológicos pelos agricultores, o que pode sustentar o crescimento de mercado. Em regiões tecnificadas, como o entorno do Distrito Federal (DF), a adoção entre produtores de soja chega a 41,7% para biosolubilizadores de fósforo; 50% para Bacillus thuringiensis e 44,4% para baculovírus, ambos usados como bioinseticidas; indo até 88,9% para bionematicidas (https://www.mdpi.com/2624-7402/7/12/416). Existe espaço para aumentar a adoção tanto em regiões com baixa tecnificação, quanto em regiões tecnificadas, como é o caso do DF.
AgriBrasilis – Em que segmentos e regiões existe espaço para mais crescimento?
Gabriel Medina – Há duas principais oportunidades para crescimento do setor no Brasil:
1. Aumentar a adoção – Oportunidades incluem tanto regiões em que já há adoção significativa como entorno do Distrito Federal, Paraná e Oeste da Bahia, quanto regiões em que a adoção é ainda incipiente, como é o caso do Piauí para fungicidas de solo, por exemplo;
2. Complementar portfólios em segmentos e regiões de menor concorrência – Há regiões agrícolas e segmentos de biológicos com pouca concorrência, como nematicidas e solubilizadores no Pará.
A disputa por preço e qualidade está sempre presente, particularmente em segmentos já consolidados, como os inoculantes. Mas há também oportunidades no aumento da adoção de biológicos em segmentos como fungicidas, nematicidas e solubilizadores; na complementação de portfólios com produtos ainda não posicionados, como nematicidas e solubizadores em novas regiões agrícolas; e na consolidação em nichos regionais que sustentem o crescimento orgânico do negócio.
AgriBrasilis – Em que situações o biológico substitui o químico?
Gabriel Medina – É consenso na comunidade científica e entre os agricultores o uso de inoculantes em substituição à adubação nitrogenada na soja. Também é crescente o entendimento sobre a eficácia dos bionematicidas quando comparados com os nematicidas químicos disponíveis no mercado. Mas, para todas as outras práticas agrícolas, os bioinsumos são vistos como adicionais [complementares] aos químicos.
Esse cenário começou a mudar recentemente no Brasil com o lançamento de biofungicidas posicionados como substitutos de químicos em aplicações específicas. Para doenças de solo, por exemplo, um novo produto de empresa brasileira é aplicado no tratamento de semente, posicionado como o primeiro fungicida biológico que substitui 100% os químicos. O produto teria potencial de substituir químicos utilizados no tratamento de sementes de soja, embora as demais etapas produtivas contariam com tratamentos químicos em sistemas convencionais.
Para doenças foliares, os principais biofungicidas do mercado hoje são posicionados como substitutos de químicos multisítio em casos de baixa pressão. Como exemplo, uma multinacional de biológicos está lançando um biofungicida composto de Bacillus velezensis que teria potencial para substituir a primeira aplicação de fungicidas químicos multisítio e sítio-específico em soja (geralmente feita entre V3 e V4). Nas demais aplicações do estágio reprodutivo seria mantida a aplicação de químicos em cultivos convencionais.
Embora tratem-se de substituições pontuais em aplicações específicas, esses novos produtos representam avanços no desenvolvimento de bioinsumos cada vez mais eficazes e com maior espectro de uso. Ainda que os insumos químicos sigam protagonistas dos sistemas produtivos convencionais, esses novos bioinsumos revelam potencial futuro para substituição de químicos por biológicos em aplicações específicas.
AgriBrasilis – Que empresas lideram esse mercado?
Gabriel Medina – Empresas brasileiras e estrangeiras disputam palmo a palmo o setor de biológicos no Brasil. Empresas líderes de venda, com portfólio amplo e maior presença nas diferentes regiões brasileiras são a brasileira Cogny dona de Simbiose e Bioma, com participação em fungicidas, nematicidas, inseticidas e destaque para solubilizadores, e as multinacionais estrangeiras Koppert e Biotrop. Outros grupos brasileiros se destacam em segmentos e regiões específicas como JCO com forte presença no Nordeste com inseticida à base de fungo e Nitro Agro com fungicida foliar, além de várias outras empresas.
Estima-se que a abrangência comercial das empresas brasileiras seja equivalente à 50% do mercado. Destaca-se a abrangência do grupo Cogny com 21,7% do mercado a partir de estimativa realizada em 2025 para 14 regiões agrícolas brasileiras. Entre as multinacionais, destacam-se Koppert, Biotrop e Lallemand com 20,2%, 17,3% e 6,6% de abrangência de mercado, respectivamente. A participação de grupos brasileiros em segmentos industriais do setor de bioinsumos é analisada em artigo da revista Commodities https://www.mdpi.com/2813-2432/4/4/26.
AgriBrasilis – O que limita a entrada de empresas estrangeiras?
Gabriel Medina – Absolutamente nada, tanto é que empresas estrangeiras estão entre as líderes de mercado no Brasil. A competitividade das empresas brasileiras, que conseguem disputar o mercado com grandes grupos estrangeiros, se dá por investimento em novas tecnologias e colaboração com centros públicos de pesquisa. Mais detalhes no artigo da revista Sustainability: https://www.mdpi.com/2071-1050/16/7/2763
AgriBrasilis – O Brasil exporta tecnologia de biológicos?
Gabriel Medina – Pouco, embora empresas brasileiras tenham buscado conquistar mercados em países vizinhos como Paraguai e também no hemisfério norte. Talvez a iniciativa mais forte nesta frente seja a da Abinbio [Associação Brasileiro das Indústrias de Bioinsumos], CropLife e ApexBrasil [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] para a expansão das exportações brasileiras de bioinsumos no âmbito do Projeto Brasil de Bioinsumos. O mais comum é empresas brasileiras fornecerem produtos para empresas estrangeiras completarem seu portfólio no Brasil.
AgriBrasilis – Quais são as perspectivas para o desenvolvimento de bioherbicidas?
Gabriel Medina – Ainda não há nenhum bioherbicida registrado no Brasil, embora pesquisas estejam em andamento para o desenvolvimento de produtos comerciais.
A Universidade Federal de Santa Maria busca o desenvolvimento de um herbicida biológico a partir do fungo Fusarium fujikuroi. Empresas privadas como a Biotrop e a UPL também estão pesquisando a produção de bioherbicidas para registro no Brasil.





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